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Avaliação: Stax SR-007 “Omega II” MKI

INTRODUÇÃO

Existem basicamente três tipos de diafragma em fones full-size: dinâmicos, isodinâmicos (ortodinâmicos) e eletrostáticos. Expliquei de modo simplista as diferenças entre eles no meu artigo sobre especificações, mas o resumo é que os eletrostáticos são normalmente considerados os melhores fones em existência, por possuírem um diafragma inacreditavelmente leve e plano, o que resulta num nível de distorção risível, resposta a transientes supersônica, detalhamento invejável e capacidade aparentemente infinita de resolução. Pontos negativos? Bem… não existem muitos, mas alguns reclamam de falta de peso e impacto. Os maiores defeitos, no entanto, são o preço e a necessidade de um amplificador (energizer, estritamente falando) específico para fones eletrostáticos.

Stax SR-007 MKI

Mas não tenho medo ao afirmar que são preços a se pagar por uma qualidade sonora de outro planeta, quanto mais se estivermos considerando um eletrostático de alto nível como o objeto dessa avaliação: o SR-007, também conhecido como Omega II.

A Stax criou, no início da década de 90, o SR-Omega como uma resposta ao Sennheiser HE90, o Orpheus. Porém, pouco tempo depois, em 1995, a empresa foi à falência. Pouco após sua ressurreição, trouxe o que seria uma revisão, porém mais barata, do seu antigo topo de linha. Assim nasceu o SR-007. Existem basicamente três versões do fone: as mais antigas, chamadas de SR-007 e SR-007BL (mercados japonês, champagne e marrom e americano, prata e preto, respectivamente), as segundas, introduzidas em 2007, chamadas  SR-007A e SR-007 MKII e as últimas, sem mudanças no nome mas com mudanças no equilíbrio tonal. Essas últimas têm o número de série começando em SZ3.

Stax SR-Omega

Curiosamente, essa ordem é normalmente considerada como o inverso da qualidade de som. As mais antigas são as melhores, enquanto as mais novas são as piores. De modo geral, os SR-007 possuem uma sonoridade decididamente quente, lush, com graves fartos, médios incrivelmente líquidos e sedutores e agudos presentes e cristalinos – detesto usar esse termo, que é muito geral, mas nesse caso se aplica, e muito –, mas comportados. Os MKI são os mais neutros da série, enquanto os MKII têm mais graves e agudos, e os mais novos, da série SZ3, são ainda mais puxados para os agudos.

Devo esclarecer que esse review, mais do que qualquer outro, vai ser do sistema SR-007 MKI com o energizer eXStatA. Pelo que dizem, as diferenças que amplificadores diferentes trazem aos eletrostáticos é mais significativa do que no caso dos dinâmicos, e infelizmente não possuo outro amplificador com o qual testá-lo. O eXStatA é uma opção DIY desenvolvida pelo Alex Cavalli, e é um energizer de ótimo custo benefício, mas não há como negar que está muito aquém do necessário para fazer esse fone chegar a seu verdadeiro potencial – o que se consegue com um HeadAmp KGSS e BHSE, ou ainda com o raríssimo Stax SRM-T2. Então, entendam esse texto como uma avaliação do sistema. Esse fone pode chegar a uma performance maior do que a descrita aqui. Tenho certeza de que isso não invalida o review, já que certamente estou ouvindo 70% do SR-007, e já vai ser possível ter uma boa ideia do que ele realmente é.

ASPECTOS FÍSICOS

O fone vem num pacote simples: fone, caixa para transporte e manual. A caixa foi de certa forma uma decepção, porque parece ser de fibra de carbono e metal. No entanto, é apenas um compensado revestido com adesivo. O lado positivo disso é que te assegura que o dinheiro foi investido no fone, e não nos apetrechos! As caixas foram modificadas nas versões mais novas, mas não sei se foi só o design.

Diafragma translúcido do SR-007

A qualidade de construção do SR-007 em si é fenomenal. Ele é todo em alumínio, com algumas pequenas partes em plástico, e bastante couro genuíno – nos pads, no headband e no elástico que prende o fone à cabeça. É luxuosíssimo e passa a forte impressão de solidez e primor de construção. O cabo é longo e bem construído – inclusive, os cabos da marca são elogiadíssimos pelos entusiastas.

Em questão de conforto, só tenho a elogiar. Ele é sem dúvida nenhuma o fone mais confortável que já usei, e olha que já usei vários. A pressão na lateral da cabeça é absolutamente perfeita para se criar um fit sem qualquer desconforto, e os pads de couro abraçam a cabeça como um travesseiro de seda. O elástico também exerce a pressão ideal, aliviando o peso do fone – que, diga-se de passagem, não é grande. Na minha opinião, ele é também um dos fones mais bonitos já fabricados, principalmente em sua versão mais nova, preta.

O SOM

É muito estranho descrever o som de um fone com essa palavra, até porque acho que as interpretações dela nesse caso são subjetivas, mas tenho dificuldades de pensar em outra que se encaixe tão bem: luxuoso. É uma mistura de calor, elegância, leveza, autoridade, conforto, effortlessness e envolvimento.

Tenho medo de chamá-lo de neutro, porque não há como negar que trata-se de um fone quente. Mas acho que seria como chamar o Sennheiser HD600 de neutro. Pode-se dizer o mesmo do AKG K701, apesar de eles serem fundamentalmente diferentes. Parece que o Stax está do lado quente e eufônico da neutralidade. A carta na manga do 007 é que esse calor não fica no caminho do detalhamento, da transparência extrema e da leveza de sua apresentação.

Stax SR-007 MKII

Dito isso, seu equilíbrio tonal pende para o lado eufônico, mas é neutro, se um pouco escuro. Graves são fartos, têm textura impressionante e bom impacto, os médios são um verdadeiro exemplo em liquidez e doçura e os agudos têm uma presença excelente e timbre muito correto. Por isso, o SR-007 é um all-rounder dos melhores, se saindo excepcionalmente bem com absolutamente qualquer estilo musical.

Os graves são excelentes, soam redondos e corretíssimos. Peso, corpo, presença e textura são ideais. Em questão de quantidade, são um pouco menos fartos que os do JH13Pro, mas ainda mais presentes que os do K701. Isso não é algo negativo, pelo contrário, na apresentação geral do fone, é exatamente como eu gostaria. Corpo e impacto também são excelentes – acredito que reclamações sobre isso em eletrostáticos se resumem aos mais simples, já que não há do que reclamar no Omega II. Textura é um caso a parte – como é um eletrostático, o nível de detalhes aliado à resposta a transientes cria uma texturização impressionante nos graves, que não é comparável à do Orpheus, mas que deixa qualquer dinâmico que já ouvi comendo poeira. É no mínimo curiosa a capacidade de renderizar tão bem as texturas dos violoncelos ao final da Patética de Tchaikovsky e, ao mesmo tempo, o enorme peso das batidas da Median, do Breakfast, no álbum Anjunabeats 9. Imagino o que aconteceria com um BHSE como amplificador…

Woo Audio WES e SR-007 MKII

Consequentemente, tanto rock quanto música eletrônica, estilos dependentes de uma boa performance nas frequências mais baixas, são muito bem apresentadas pelo 007. Ele não convêm a mesma energia do JH13Pro (até hoje o melhor fone para rock que já ouvi), mas não fica longe. Tem uma apresentação mais comportada e, de certa forma, mais correta. Quanto à extensão… bem, vejam os números ao final do artigo. Acho que não preciso falar nada.

Quanto aos médios, é engraçado… acho realmente difícil falar muito aqui. Eu poderia simplesmente passar alguns parágrafos usando e abusando de superlativos para descrever a região média desse Stax. Vou dizer simplesmente que são de um calor, liquidez, clareza, e corpo de levar meu queixo ao chão. É como se fossem de seda, não há como explicar. Vocais, pianos e guitarras em boas gravações são de chorar. A Quiet Nights, do CD homônimo da cantora e pianista Diana Krall, é um daqueles casos: só vendo para crer. Quer dizer, nesse caso, ouvindo. É de um envolvimento e de uma sedução realmente inacreditáveis.

eXStatA

O melhor de tudo é que esse calor, diferentemente de tudo o que já ouvi, não vem a custo de transparência e detalhamento. Esse é o único fone que já ouvi que é, ao mesmo tempo, doce e eufônico mas transparente e detalhista. Ele consegue recuperar microdetalhes com uma proeza incrível, mas ele não os joga na sua cara, simplesmente os coloca ali para serem ouvidos caso o ouvinte queira. Sua personalidade mais escura parece criar um finíssimo véu no som, algo parecido com o Sennheiser HD600, mas esse véu é extremamente discreto e não tira nada da música – ao invés disso, é como se ele estivesse, de certa forma, tentando (e conseguindo) tornar a experiência ainda mais doce e agradável. Isso funciona até em rock. Apesar de conseguir ser tão doce, ele não perde a capacidade de ter autoridade e peso quando lhe é requisitado. O álbum Night Is The New Day, da banda Katatonia, é um atestado disso. A banda mistura um instrumental realmente agressivo com vocais suaves e melodiosos, e o que o Stax consegue fazer com as músicas é espetacular.

Os agudos também beiram a perfeição. Eles têm um pico notável, mas é novamente mais como uma coloração eufônica do que um problema. Assim como nos médios, eles parecem ter um discreto véu praticamente transparente por cima deles, o que mais uma vez não vem a custo de neutralidade e pura transparência. Pratos de bateria são muito bem apresentados – se um pouco finos em algumas situações. Fora isso, novamente não há do que reclamar. A presença, o brilho, a clareza, a velocidade e a transparência são praticamente irrepreensíveis. O fato de esse fone soar escuro parece ter mais a ver com os médios do que com os agudos.

HeadAmp BHSE e SR-007 MKI

O palco sonoro, seguindo a personalidade do SR-007, é mais intimista do que expansivo. Apesar de ser muito preciso no posicionamento, no recorte e no arejamento, ele não é um exemplo em expansão, e se limita a um espaço curto se comparado, por exemplo, ao Sennheiser HD800. Definitivamente não é algo que me incomoda, mas aqueles esperando por uma experiência totalmente aberta podem se decepcionar. É um palco muito natural, algo como o do JH13Pro, mas, pelo fato de ele ser aberto, a sensação de arejamento e de ausência de limites é muito maior. Não se assustem pela comparação, esse IEM tem um palco incrível, mas ele te passa a sensação de ser fechado. O Stax, em compensação, tem o palco de um tamanho parecido – o que é um elogio, não soa artificial como o AKG K701 ou ainda como o HD800, de certa forma – , ou seja, extremamente correto e realista, mas sem a sensação de limites. É como se ele simplesmente levasse a música mais para perto de você, mas não tanto a ponto de o ouvinte perder espaço para respirar.

A capacidade de resolução também é nada menos que incrível. Não existem passagens complexas para o SR-007. E isso usando uma fonte simples como o Cambridge DacMagic e uma amplificação boa mas honesta, como o eXStatA. As diferentes camadas são apresentadas de forma exemplar. Ainda no Quiet Nights da Diana Krall, é possível identificar claramente a voz em primeiro plano, o piano e os pratos da bateria em segundo, seguidos pelas cordas em terceiro e pela percussão no quarto. Dinamicamente o fone também é excelente. Não é tão impressionante nesse quesito quanto o JH13Pro, já que ele parece te preparar ao que vem – ao contrário do monitor. Em concertos de piano, por exemplo, as variações de intensidade das notas são muito evidentes. O início do Segundo Concerto para Piano de Rachmaninoff, com o solista Lang Lang, é forte evidência de sua capacidade.

No todo, o SR-007 se revela como um fone de capacidades extremas, mas elas não são jogadas na cara do ouvinte com prepotência. Ao invés disso, elas são reveladas de maneira suave, e tornam um fone simplesmente apaixonante.

CONCLUSÃO

O Stax SR-007 definitivamente faz jus à fama. Não é à toa que ele é considerado um dos melhores fones já produzidos. Sua capacidade de criar uma conexão emocional com a música é inacreditável, e o excelente equilíbrio tonal faz com que isso seja aplicável a qualquer estilo musical. Suas características são únicas, e aliam habilidades que, em outros equipamentos, são mutuamente exclusivas.

Stax SR-007 MKI e Sennheiser HD800

Ele é capaz de prover a energia e a autoridade necessárias para gêneros mais energéticos, mas não esconde que suas verdadeiras habilidades estão na sedução de uma incrível renderização de jazz, peças acústicas, folk e música erudita. A palavra chave nesses casos é essa, sedução – e conforto. Esse fone é realmente apaixonante e é capaz de amolecer o ouvinte mesmo quando ele está em seus momentos mais insensíveis. É muito fácil se apaixonar por uma boa performance de um vocal feminino com o Stax. Elas ganham uma nova vida.

Não tenho como enfatizar o quão delicioso é chegar de um dia difícil no trabalho e colocar o Stax SR-007 na cabeça. O foco não é nem sua proeza, nem o sistema e nem mesmo a música: é você. Ele vai encontrar um jeito de te apresentar a música da melhor forma possível, e acredite, isso não acontece a custo da neutralidade. Ele nunca vai deixar de ser neutro. Mas vai ter sempre um jeitinho de te conquistar tocando música exatamente como você quer

Ele pode tocar qualquer coisa, das músicas mas leves às mais pesadas. Mas parece que o que ele quer de verdade é te colocar no colo, fazer um carinho na sua cabeça e te fazer dormir cantando Diana Krall.

 

Ficha Técnica

Stax SR-007 MKI – fora de produção (entre US$ 1.600,00 e 2.000,00 no mercado de usados)

Stax SR-007 MK2 – US$ 2.600,00

  • Driver eletrostático push-pull
  • Sensibilidade (10kHz): 100dB/100V r.m.s.
  • Impedância (10kHz): 170.000 ohms
  • Resposta de Frequências: 6 – 41,000 Hz
  • Bias Voltage: 580V (Stax Pro Bias)

 

Energizers Recomendados – necessários para o funcionamento do fone

  • Stax SRM-323S – US$ 999,00 – melhor custo benefício comercial atualmente
  • Stax SRM-717 – fora de produção (entre US$ 1.000,00 e 1.400,00 no mercado de usados)
  • Stax SRM-007t –fora de produção (entre US$ 1.100,00 e 1.400,00 no mercado de usados)
  • Stax SRM-727A – US$ 1.999,00
  • HeadAmp KGSS – fora de produção (entre US$ 1.800,00 e 2.200,00 no mercado de usados) – o melhor meio termo entre custo e performance
  • HeadAmp BHSE – US$ 4.995,00 – o mais indicado
  • Projeto KGSSHV – projeto em andamento
  • Ray Samuels A-10 Thunderbolt – US$ 6.500,00
  • Woo Audio WES – US$ 4.990,00

 

Equipamentos Associados:

  • Transportes: iMac, MacMini
  • DACs: Electrocompaniet ECD-1, Cambridge Audio DacMagic
  • Amplificação: eXStatA
  • Energia: AC Organizer LC111
  • Cabeamento: Acoustic Zen Krakatoa, BlueJeans XLR
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Avaliação: AKG K1000

INTRODUÇÃO

Essa deve ser a avaliação mais longa que já escrevi – em compensação, é a mais honesta. O AKG K1000 é um fone que ainda me divide, e vou dizer muita coisa que vai assustar alguns – mas esse texto é realmente sincero e só vai refletir a confusão do que sinto em relação a ele.

 

O AKG K1000

AKG K1000

Um dos métodos que o nosso cérebro usa pra definir a origem de um som é através de uma triangulação – dá para entender fazendo um paralelo com a visão: o que chega a um olho também chega ao outro, mas num ângulo diferente – e o cérebro usa o cruzamento desses pontos de vista pra definir a posição de alguma coisa. O mesmo método é usado com os ouvidos, o que chega num chega no outro, mas com variações (simplificando, o sinal que chega ao ouvido mais distante é atenuado, atrasado e tem variações de fase), que são usadas pra calcular a posição do emissor do som. Daí vem a sensação de palco sonoro. Quando ouvimos um bom set high-end de caixas de som com gravações de referência, é possível “enxergar” um palco sonoro formado na sua frente, com os instrumentos ocupando seus respectivos espaços. É uma experiência incrível – as caixas parecem desaparecer.

Em fones de ouvido, a situação é diferente. O que acontece é que o posicionamento dos drivers é muito artificial em relação a fontes “reais” de som. Essas fontes normalmente vêm da nossa frente e os falantes de fones estão nos lados. Tanto o atraso quanto a variação de fase são perdidos. Por mais que a música abuse do estéreo, os sons parecem acontecer dentro da nossa cabeça, se limitando a vir da esquerda, do centro e da direita. Além disso, existe o fato de que tudo o que ouvimos sofre influência direta das reflexões causadas pela pina, a parte externa das nossas orelhas. Essas reflexões são únicas, e, novamente, o posicionamento artificial dos falantes de fones de ouvido causa uma interação com a pina muito diferente das fontes reais.

O que acontece é que a imagem da música produzida por fones de ouvidos comuns é muito diferente da realidade geralmente limitada à nossa cabeça (daí o termo headstage ao invés de soundstage), e caixas de som chegam muito mais perto.

A AKG quis criar um novo conceito para resolver essas anomalias. Daí surgiu o AKG K1000. Ele é, basicamente, um par de pequenas caixas de som abertas suspensas na frente dos nossos ouvidos. O arco do fone atua somente como um suporte para elas. Esse posicionamento é a chave: como os falantes não fazem uma moldura fechada ao redor dos nossos ouvidos e como eles são posicionados à frente deles, o atraso e a variação de fase dos sons é mantida – obviamente numa menor quantidade que as de fontes reais de sons –, e as reflexões na pina são mais verossímeis. O resultado é um palco sonoro completamente diferente de qualquer outro fone de ouvido: ele lembra muito mais um par de monitores near-field.

O K1000 sem dúvida alcançou muitos dos objetivos de seus criadores, mas a um preço: nenhum fone dinâmico já produzido precisa de tanta potência. O Hifiman HE6 é o único que se aproxima dos requisitos do austríaco. A sensibilidade é assustadora – 74dB/1mW – e, por isso, ele precisa de pelo menos 1W em 120 ohms, ou seja, 8W em 8 ohms. Para um fone de ouvido, essa é uma quantidade monstruosa de potência. Por isso, ele normalmente precisa de um amplificador de caixas de som, já que pouquíssimos amplificadores de fones são capazes de prover o K1000 com a potência que ele necessita. Consequentemente, ele não é terminado num conector P10, e sim num XLR de 4 pinos. Vem, também, com um adaptador que permite conectá-lo diretamente a terminais de caixas de som.

 

ASPECTOS FÍSICOS

Fisicamente, o K1000 segue a regra da forma que segue a função. Nada a mais, nada a menos. São literalmente dois falantes suspensos por um arco, e envoltos por uma grade. Ele possui três ajustes: o ângulo dos

Caixa de madeira

falantes, a regulagem das almofadas que o prendem às laterais da cabeça e o headband, que é preso com um elástico e se ajusta à cabeça do ouvinte.

O visual reflete a sua época: 1980, the decade that taste forgot (a época que o bom-gosto esqueceu). Portanto, é um dos fones mais feios que já vi. O conforto também não é dos melhores, já que as almofadas laterais exercem mais pressão do que eu gostaria, e ele não é exatamente leve.

Ele vem com um informativo manual, contendo toda a história de seu desenvolvimento assim como o embasamento teórico dele, uma caixa de madeira e um adaptador para que ele seja ligado a amplificadores de caixas de som.

 

O SOM

Nota: existem duas versões do K1000. As mais antigas, com o número de série até aproximadamente 05xxx, são as consideradas bass-heavy e amplamente vistas como as melhores. As mais novas tinham uma quantidade menor de graves. Essa unidade é das mais antigas.

É muito fácil se encantar com o que se ouve na primeira vez que colocamos o K1000. Comigo foi assim. O problema, para mim, foi manter esse encantamento. Esse fone possui algumas particularidades que me impediam de apreciar inteiramente a sua performance. Apesar de ele soar particularmente neutro, sua neutralidade não era, pelo menos para mim, inteiramente desejável. Apesar do AKG ser conhecido por ser um fone difícil de ter sinergia com equipamentos, acho que meu nível de “desgosto” em alguns momentos ia além disso. Por mais que ele fizesse certas coisas incrivelmente bem, no final das contas alguns defeitos não tornavam possível que eu aproveitasse plenamente o que estava ouvindo. Acredito que para boa parte das pessoas esse não seria o caso – a sinergia seria sim difícil, mas não tão difícil quanto foi para mim. Posso dizer que em muitos momentos eu não gostei (e não gosto) desse fone.

O que vou falar agora vai assustar muita gente: o problema é que o som do K1000 é cru, duro, agressivo, não refinado e forward. Não se enganem: esse fone é capaz de proporcionar uma experiência incrível, não é à toa que é considerado um dos melhores fones de ouvido já fabricados. O problema é que não é com qualquer estilo de música e é difícil chegar lá. A jornada até achar algum amplificador que realmente me agradasse com esse fone foi longa, e mesmo com o melhor que já pude ouvir, o AKG ainda falha em me encantar em diversos momentos. Algumas falhas ainda são, para os meus ouvidos, significativas.

Diafragma VLD

Por incrível que possa parecer, os graves são a parte menos complicada dele. O diafragma que a fábrica austríaca conseguiu desenvolver possui uma excursão enorme, o que permite que um bom nível de graves chegue ao ouvinte – e com muito impacto. Não é um grave de tremer a cabeça, longe disso, mas é mais forte que, por exemplo, o do K701. Ele é muitíssimo bem integrado no espectro de frequências e, mesmo não sendo um exemplo em textura, é rápido e bem resolvido. Por isso, surpreendentemente ele se sai muito bem com pop, música eletrônica e até hip-hop. Não achem que ele vai produzir graves como um fone fechado – definitivamente não há como isso acontecer –, mas ao mesmo tempo, seu rendimento nessa gama de frequência é muito diferente do que seu design nos faz crer.

Porém, obviamente, existe um ponto em que ele sofre: extensão. Normalmente o roll-off nos graves é gradativo e segue uma atenuação suave conforme a frequência desce. No K1000, esse roll-off é muito mais abrupto. Abaixo de 30Hz, desista! Poucas músicas descem tanto, mas nas que descem, sim, você vai perder parte da música. Mas é um preço a se pagar pelas vantagens únicas desse fone, e definitivamente não é algo que me incomoda.

Os médios são, para mim, o maior impasse na apreciação do AKG. O problema é que, como já foi dito, eles são naturalmente mais para frente do que eu gostaria. É algo como o Shure SE530, mas com mais agudos. Se fosse só isso, não haveria problema, visto que eu gostava muito do SE530 e reclamava justamente da falta de agudos. A questão é que, além de os médios estarem para frente, eles de alguma forma soam duros e não refinados com boa parte dos amplificadores que usei. É uma sensação estranha que nunca ouvi antes, e se manifesta com uma agressividade acentuada. Ouvir alguns rocks mais pesados, por exemplo, pode incomodar bastante, algo que não acontecia com o Shure – muito pelo contrário, aliás. Os graves, rápidos e secos, não são o suficiente para criar uma percepção de “amaciamento” dos médios, o que com alguns fones acontece.

Detalhe do diafragma

Com o JVC A-S5, que naturalmente possui médios mais felizes, o resultado é muito ruim. Falta total de refinamento e uma dureza de doer a alma. Obviamente nesse caso é também um problema sério de sinergia, não sendo culpa do K1000. O Little Dot MKVI com upgrade de válvulas tocava consideravelmente melhor, mas ainda sim mantinha essa dureza nos médios que tanto me incomoda. Quem ajudou muito é o Meier Audio Eartube, com sua sonoridade decididamente romântica, doce e macia – foi ele quem chegou mais perto de domar o AKG. Quando aliado ao DAC Electrocompaniet ECD-1 (também mais quente), é capaz de fazer esse fone cantar. Mas comparados aos do Stax, JH13Pro e K702, os médios do K1000 são consideravelmente forward, e não apresentam a doçura que os outros fones podem ter, mesmo com o Meier. Em alguns estilos musicais essa característica pode ser bem-vinda, mas eu prefiro apresentações mais quentes, e aí é difícil fazer o AKG tocar como eu gosto.

Os agudos e médio-agudos também são um pouco estranhos. O problema é que em todos os fones que já ouvi, parece haver um pequeno incremento nos agudos, o que proporciona um certo brilho a mais e os destaca em relação ao resto das frequências. No K1000 isso não parece existir, então os agudos, apesar de em algumas situações serem ríspidos, soam demasiadamente como uma extensão dos médios e não parecem ter seu próprio espaço no espectro. É como se eles entrassem nos médios, e não existe aquela sensação comum de brilho que outros fones proporcionam. Não sei se encaro isso como um defeito ou como uma qualidade. Entendo de certa forma como uma neutralidade extrema, mas podendo ouví-la, não sei se é o que desejo.

Não é que os agudos sejam ruins – em muitas situações são fantásticos, mas são diferentes de qualquer outro fone que eu já tenha ouvido. A sensação é essa: não parece haver um espaço tão definido para os agudos.

Almofadas laterais

Com o Eartube essa situação se agrava um pouco porque ele possui os agudos naturalmente mais “escondidos”, o que amplia esse “defeito” no AKG mas é um preço a se pagar pela melhor performance na região média – além disso, com esse amplificador, os agudos não apresentam qualquer resquício de agressividade.

É difícil explicar a sonoridade geral desse fone, mas uma analogia estranha que sempre me vem à cabeça é a de um baixo acústico: ele soa cru e duro, e em certos casos podem ser exatamente o que se quer, mas em outros não. Por exemplo, com músicas acústicas, essa dureza de que tanto reclamo pode ser muito bem vinda porque estranhamente aumenta essa sensação de realismo. Perde-se maciez e ganha-se verossimilhança. Folk e música erudita são gêneros que fazem o K1000 se destacar.

Mas o que torna esse fone realmente especial e ainda me fazem querer mantê-lo em minha coleção é seu palco sonoro. Ele é de fato completamente diferente de qualquer coisa que eu já tenha ouvido, e é capaz de criar uma experiência realmente imersiva mas ainda assim mais realista do que a que outros fones criam. É como se houvesse um pequeno palco à frente da sua cabeça. A experiência é muito mais próxima da de caixas de som do que da de fones de ouvido. Parece muito com monitores near-field. Alguns o criticam dizendo que é um fone indeciso – se o ouvinte quer caixas ouve caixas, e se quer fones ouve fones, e não há espaço para o K1000. Mas, para quem quer um meio termo – ou ainda, para quem não pode ter caixas mas não se acostuma com fones, ele pode ser a solução perfeita.

Músicas mais leves são fenomenais, porque o AKG consegue renderizá-las de um jeito único e encantador. Pequenos grupos acústicos, como Kings of Convenience, Joanna Newsom, Sufjan Stevens e Martha Tilston foram feitos para ser ouvidos com o K1000, já que não se importam com um boost (e com a dureza) nos médios. Não há nada igual ao que esse fone faz. Música erudita é um gênero em que ele é particularmente habilidoso, sendo capaz de tornar a 7ª sinfonia de Sibelius mais envolvente do que nunca. Esse palco criado se estende ao redor do ouvinte com uma definição incrível. Não é uma definição tão difusa quanto a de fones comuns, é algo de certa forma mais intimista e mais palpável. Em gravações binaurais o efeito é particularmente impressionante – pena não ser um formato comum. De toda forma, a conexão emocional com a música proporcionada pela junção do intimismo dos fones com o realismo das caixas de som é absurda.

AKG K1000

Curiosamente, apesar da experiência assustadoramente espacial, o AKG não possui uma separação instrumental das melhores. O problema é que ele parece se confundir com passagens mais complexas, o que é muito curioso mas não me incomoda, já que praticamente só o ouço com gêneros mais calmos – onde esse tipo de confusão não é crítica. Mas, é importante dizer que, caso alguém não se incomode tanto com o equilíbrio tonal desse fone e o ouça com mais gêneros, é possível que essa característica seja mais evidente. O Stax SR-007 e fones mais modernos, como JH13Pro e Sennheiser HD800 são muito mais bem resolvidos nesse quesito.

Alguns não são, no entanto, em transparência e velocidade. O AKG K1000 possui um diafragma incrivelmente rápido e transparente. O nível alcançado de micro-detalhes é nada menos que impressionante, quanto mais se levarmos em consideração que estamos falando de um fone totalmente aberto e com os agudos comparativamente calmos. Definitivamente não é o que se espera. Já a velocidade não é tão chocante porque, acho, a enorme excursão necessária para esse falante exige uma grande velocidade.

 

CONCLUSÕES

Detalhe do AKG K1000

Estou hesitante em chamar esse capítulo de conclusão e acho que devo desculpas ao leitor, porque não estou lá muito satisfeito com o que escrevi e temo que não esclareça muita coisa a respeito do K1000 – acho inclusive que posso passar uma impressão errada, dando a impressão de que estou falando de um fone ruim. Acabou se tornando mais um desabafo do que uma avaliação em si.

A grande questão é que esse review só externa a confusão do que sinto em relação a esse AKG, e o desgosto que tenho pelo fato de que ele consegue me deixar muito chateado em alguns momentos mas, com a música e com o sistema certos, é nada menos que fenomenal.

Acho que sou uma exceção já que é muito comum rasgar elogios ao K1000, e nunca vi críticas tão veementes a respeito do seu equilíbrio tonal. Talvez eu simplesmente não goste tanto assim dele, porque apresentações mais calmas nos médios (como a de todos os outros fones que já ouvi exceto pelo SE530) me agradam mais. Sei também que não é um problema no meu par especificamente porque já pude ouvir outro, que soava exatamente igual.

Amo o K1000 e o odeio. Com um sistema com pouca sinergia o resultado fica muito aquém do que eu gostaria, porque suas virtudes não são o suficiente para tirar a minha atenção das falhas. Mas, com algo que resolva seus problemas – como o Meier Eartube e Electrocompaniet ECD-1 –, e com as músicas certas, esse fone consegue criar uma experiência realmente sublime.

Tenho certeza de que, mais do que nunca, muito do que escrevi é puramente uma questão de gosto pessoal. É sim possível que o equilíbrio tonal do AKG K1000 esteja mais perto da perfeição do que os outros fones que conheço, visto que ele não é considerado um dos melhores fones já fabricados por poucos. Acontece que, após esse meu tempo de estrada relativamente curto, priorizo uma certa eufonia na sonoridade dos fones, e essa eufonia não é tão facilmente encontrada no fone em questão. Fico me perguntando se esses médios para frente não são mais próximos da realidade, e em alguns momentos acredito que sejam. O problema é que eu descobri que essa aparente neutralidade não é exatamente o que eu busco.

Conector XLR

Para muitas pessoas, é certo que o K1000 vai ser um fone absolutamente perfeito – não tenho dúvidas. Apesar de ser difícil obter uma boa sinergia com ele (senti essa dificuldade na pele, quase chegando a desistir do fone), quando ela é obtida, as habilidades incríveis do AKG são realmente únicas e criam algo de cair o queixo. São esses momentos que me fazem manter esse fone. Apesar de, como ficou claro, eu ter sentimentos muito misturados com relação a ele, e em alguns momentos – não tenho medo de dizer – eu definitivamente não gostar do que ouço, sei que o que ele faz de melhor, ninguém faz igual.

Então posso afirmar que, apesar das características que eu enxergo como defeitos, o AKG K1000 não é uma lenda à toa. Sua apresentação que mistura o intimismo dos fones com o realismo das caixas de som, com estilos que não evidenciem suas falhas, é diferente de tudo o que existe no mundo do áudio.

Não é sempre que gosto dele. Mas quando gosto, reafirmo a certeza de que ele é uma verdadeira jóia, uma peça única na história dos fones de ouvido que não sai mais daqui.

 

UM ADENDO: CHEGANDO AO SISTEMA IDEAL

Quando comprei o K1000, comecei a usar o Cambridge 340A SE e me impressionei muito com o que ouvi. Mas acho que boa parte disso devia-se ao fato de eu estar ouvindo uma novidade, e com o tempo eu passei a perceber falhas que me incomodavam bastante. Tudo aumentou quando fui obrigado a trocar o integrado do meu quarto por um JVC A-S5. O problema é que ele também tem os médios agressivos, então o resultado foi uma reprodução incrivelmente dura e deselegante. Os graves eram presentes, mas os médios estavam léguas à frente deles, com uma dureza absurda, e os agudos ríspidos e sem uma progressão nítida a partir dos médios não ajudavam. Eu definitivamente não estava gostando do que ouvia.

Nesse momento, tinha investido num Stax SR-007 MKI, que se tornou meu fone preferido, e o K1000 ficou esquecido. No entanto, eu ainda tinha esperanças e resolvi procurar um amplificador para fones dinâmicos que pudesse empurrar o AKG e qualquer outro dinâmico que eu pudesse vir a ter em mãos. Foi quando comprei um Little Dot MKVI. Quando liguei o fone nele pela primeira vez, a decepção: não era tão diferente do JVC. Nesse momento, decidi trocar as válvulas originais (ruins) por outras melhores, e aí a situação começou a mudar.

Os médios foram colocados para trás, e o som deu uma boa arredondada, ganhou refinamento e doçura. A diferença não era gritante – mas era uma dessas situações em áudio que uma pequena mudança é suficiente para transformar a nossa percepção geral do que ouvimos. A melhora objetiva não foi grande, mas colocar os médios um pouco para trás foi o bastante para tirar o incômodo do que ouvia, e transformou a experiência em algo prazeroso. Ainda não era 100% como eu queria – alguma dureza permanecia, e o som ainda era centrado nos médios –, mas estava bem mais próximo.

Após um tempo decidido a manter o MKVI, surgiu a oportunidade de adquirir um Meier Audio Eartube, famoso pelo som exageradamente valvulado, doce e macio. Como essa é uma receita para se dar bem com o AKG, resolvi aproveitar a oportunidade, e após ouvir os dois, decidiria qual manter. O resultado já foi postado nas impressões do micro-meet: o Meier tem um som muito mais doce e redondo – maciez é a palavra chave, e faz toda a diferença. Com o Eartube, consegui chegar o mais perto possível da reprodução ideal com o AKG K1000.

 

Ficha Técnica

AKG K1000 – fora de produção (entre US$ 1.100 e 1.500 no mercado de usados)

Driver dinâmico único

Sensibilidade (1 mW): 74 dB SPL/V

Impedância (1kHz): 120 ohms

Resposta de Frequências: 30 – 25,000 Hz

 

Equipamentos Associados:

Transportes: iMac, MacMini, Marantz BD7004

DACs: Electrocompaniet ECD-1, Cambridge Audio DacMagic

Amplificação: Meier Audio Eartube, Little Dot MKVI, Marantz PM-11S2, Cambridge Audio 340A SE, JVC A-S5, Burson Audio HA-160D

Energia: AC Organizer LC111

Cabeamento: Acoustic Zen Krakatoa, Acoustic Zen Silver Reference II, Cambridge Audio Arctic, BlueJeans XLR

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